sexta-feira, janeiro 21, 2011

Ai as dores de cabeça...


Romeu deu por si a ruminar uma ideia incessantemente: e se eu fosse mais eu e menos tu???

A ideia, primeiro era só um pensamento que lhe ocorria, depois foi ganhando vida e começou a ocupar-lhe os dias, mesmo os de intenso frenesim, por fim, obliterou-lhe, quase por completo, o sono...

Romeu já nem era Romeu, era "uma espécie de magazine" de Romeu...

Já não lia como outrora,
Já não ouvia musica de qualidade como noutros tempos,
Já nem sequer, debatia assuntos de interesse nacional como no passado.

Romeu, que queria ser mais ele do que o outro, estava tão obcecado com essa ideia que, deixou mesmo, de ser ele próprio, de viver a vida e de extinguir em cada abraço...

Numa das suas viagens deu por si, a olhar para os outros mas, a verificar que os outros não o olhavam...

Romeu, na ânsia de ser ROMEU, tinha deixado de existir.

Era já só uma ideia...

Quase moribunda...

quarta-feira, outubro 13, 2010

E...


Romeu acordou renovado, aquele amor adulto tinha-o encontrado e Romeu, desta feita, não tinha virado costas, respondido mal, ser sarcástico ou sequer, olhar com humor corrosivo.

Romeu, abriu os olhos e sorriu, apenas isso, sorriu. Abriu bem os olhos, viu para além dos raios da manhã, das "ramelas" nocturnas e da já conhecida miopia.

Romeu sorriu.

A idade adulta tinha-o apanhado. Quase de surpresa não fosse Romeu estar tão preparado e carente pela espera.

O amor também.

Romeu só não sabia o que dizer para além de ter o sorriso, que agora raiava o tolo.

Romeu estava tolo de sorrir. Deu-se conta que só os tolos se riem, porque de facto, só quando dizemos coisas verdadeiramente tolas é que rimos.

Romeu ria e não conseguia parar de o fazer. Incorria no sério risco de ser mal interpretado.

Colocou o seu ar mais composto de seriedade... e ainda assim, como uma flor que esperou toda uma Primavera para florir, o sorriso de Romeu despontou em crescendo como se uma opereta Mozartiana se trata-se...

E riu... e riu...

Já estava com os abdominais em pleno esforço quando lhe ocorreu o seguinte pensamento:

E rir é mau?

quarta-feira, outubro 06, 2010

Espanto


Romeu já é Romeu...

Há nele um espanto.

Ela beijo-o e Romeu ficou-se pelo espanto. Espanto quase pueril, inocente e tão surpreso como se aquele fosse o seu primeiro...

Recuou pelo menos dois passos. Abriu os olhos. Ela segurou-lhe as mãos delicadamente. Romeu já não era Romeu mais parecia uma Madalena de tanto surpreso e virginal que estava perante a concretização do beijo esperado.

Nessa noite não ficou. Na seguinte também não.
Romeu apanhou o primeiro Rocinante que se apresentou por boleia e rumou ao desespero do castelo solitário.

Chegado lá sentiu-se admiravelmente bem. Seguro. Protegido.

Chorou.

Muito. Mesmo.

Julgava que estava a trair um sentimento que já só existia nele. Uma pessoa que só existia no seu pensamento.

Limpou as lágrimas e de forma fria pensou: e agora? O que faço?

Romeu já não era Romeu. Era um Orlando de Wolf em plena transmutação sexual... Romeu estava com medo daquilo que se apresentava, da tempestade conhecida, da bonança falsificada...

Romeu, que tinha descoberto fazia tão pouco tempo a pacificação da liberdade, via-se de novo enredado numa teia que se antevia de pseudo-amor e tolas promessas...
Romeu queria continuar a ser Romeu e quando se olhava no espelho só via Belas Adormecidas, Cinderelas e mulheres quejandas...

Romeu ainda gritou pelo seu fiel amigo Mercurio... Não obteve resposta.

Romeu quer ser Romeu.

Mas...

Romeu será ainda, Romeu?

sexta-feira, outubro 01, 2010

Par...ir...


Com força, agora.
Respira.

De novo.

Respira, agora compassadamente.

Um pouco mais.

Está quase.
Chegou.

A mãe chora, o filho do seu ventre sente-se desconfortável, com frio, ansiando o calor dos braços da sua mãe, o pai olha-o com espanto.

Parir um filho dá trabalho.

Criá-lo dá mais.

O amor é assim mesmo: dificil de parir, choroso, esperançoso pelo fim do frio e a chegada da quentura e claro... espantoso.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Mundo


O Romeu quer ser mundo.

Já correu Mundo.
Já falou Mundo.
Já conheceu Mundo.
Já viu Mundo.
Já sentiu Mundo.

Ultimamente Mundo tem vindo até si: segreda-lhe ao ouvido, toca-o de mansinho, sorri, vai com ele até à praia, deleita-se no sol, encosta-se a si enquanto lê, beija-o quando acorda, abraça-o durante o sono inquieto da noite... ... ...

O Romeu sente-se perdido.

Quer dar-se a este Mundo. Quer acreditar no seu coração.

Mas o seu pensamento dita-lhe a já conhecida oração de Judas:

Não te entregues a quem te dá Mundo, porque o mais certo é quando partir, levar Mundo consigo.

O Romeu encolhe-se de novo, para a sua pacata e discreta concha, sabe que aquele não é Mundo mas, ao menos não lhe pode ser roubado.

O Romeu tem passado nestes dias de sol, verdadeiros tormentos chuvosos.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Mental


A prática profissonal de Romeu tem a ver com a doença e a deficiência mentais. Para manter os palacetes de família teve de ser... A esgrima já não era também, entretém suficiente...

Há algo de interessante na doença mental: a forma como surge, a sua causalidade, a alteração comportamental, a localização cerebral,o grau de gravidade, se apenas sofre de uma ou mais doenças mentais... ... ... por fim, o mais interessante: como se cura uma doença mental?

É na cura que se centra a maior dificuldade deste tipo de doenças. É na cura que muitos de profissão igual perdem a esperança. É na cura que se perdem muitos utentes. Mas é também na cura que reside a maior fonte de "preenchimento profissional".

O Romeu escolheu esta área por mero acaso mas, manteve-a por opção. Achou, bem depois de terminada a formação que era uma área de constante estudo e isso, deixa-o em puro êxtase. Saber que nunca sabe nada e que para saber alguma coisa terá sempre de ler e ler e ler ainda mais é uma tarefa tão sublime como se todos os dias fossem dias mesmo novos. Sem repetição. Sem inércia. Sem enfado.

Durante anos foi feliz na sua profissão que, diga-se desempenhava com a mesma felicidade e frescura como se de um garoto se tratasse ao ver, pela primeira vez ,o mar. As situações mais inusitadas acabavam por fazer com esboça-se um sorriso a cada passo dado com um seu utente. É que sabem não era no fundo, um passo do utente, era um passo do utente com Romeu e isso, dava-lhe a sensação de dever cumprido todos mas mesmo todos os dias.

Romeu portanto, já foi bom, em alguma coisa. Já foi uma pessoa. Uma pessoa que acreditava num futuro melhor. Um futuro bom.

Agora essa tarefa de acreditar torna-se, a cada dia, um esforço mais brutal e complicado e inglório e enfadonho e triste e infeliz e cansativo e... e... e...

domingo, setembro 19, 2010

deus...


O Romeu, quando era novo era um pequeno deísta...

Mais velho, começou a achar que a Julieta era o seu deus...

Nenhum destes pensamentos se revelou como certo.

O Romeu sente-se sempre como um garoto a olhar um majestoso pedestal: qualidades majestosas, possibilidades infinitas...

O universo está, naqueles braços que segura ternamente durante a noite, no olhar carinhoso com que olha a pessoa amada...

Rilke, afirmou um dia, numa das suas cartas, que a única forma de se manter um casamento seria sempre pelo movimento de separação-reconciliação.

Romeu adora ler Rilke e acha-o um verdadeiro escritor... Não concorda, porém, com esta afirmação do seu escriba tão admirado.

O Romeu só quer mesmo é não se separar ainda que compreenda que por vezes, nessa ânsia de não-separação acabe por ser mal interpretado e muitas vezes a separação se torne implacavelmente desejada.

Por vezes, Romeu, só desejava não ter constantemente as lágrimas nos olhos.
Não ter de se separar.
Não ter de perder parte de si, todo o outro.
Ver as rugas na cara do outro surgirem.
Adivinhar-lhe os cabelos brancos...

De poder dizer: estivemos uma vida inteira juntos e teremos outra para ficar perto um do outro.