segunda-feira, setembro 27, 2010

Mundo


O Romeu quer ser mundo.

Já correu Mundo.
Já falou Mundo.
Já conheceu Mundo.
Já viu Mundo.
Já sentiu Mundo.

Ultimamente Mundo tem vindo até si: segreda-lhe ao ouvido, toca-o de mansinho, sorri, vai com ele até à praia, deleita-se no sol, encosta-se a si enquanto lê, beija-o quando acorda, abraça-o durante o sono inquieto da noite... ... ...

O Romeu sente-se perdido.

Quer dar-se a este Mundo. Quer acreditar no seu coração.

Mas o seu pensamento dita-lhe a já conhecida oração de Judas:

Não te entregues a quem te dá Mundo, porque o mais certo é quando partir, levar Mundo consigo.

O Romeu encolhe-se de novo, para a sua pacata e discreta concha, sabe que aquele não é Mundo mas, ao menos não lhe pode ser roubado.

O Romeu tem passado nestes dias de sol, verdadeiros tormentos chuvosos.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Mental


A prática profissonal de Romeu tem a ver com a doença e a deficiência mentais. Para manter os palacetes de família teve de ser... A esgrima já não era também, entretém suficiente...

Há algo de interessante na doença mental: a forma como surge, a sua causalidade, a alteração comportamental, a localização cerebral,o grau de gravidade, se apenas sofre de uma ou mais doenças mentais... ... ... por fim, o mais interessante: como se cura uma doença mental?

É na cura que se centra a maior dificuldade deste tipo de doenças. É na cura que muitos de profissão igual perdem a esperança. É na cura que se perdem muitos utentes. Mas é também na cura que reside a maior fonte de "preenchimento profissional".

O Romeu escolheu esta área por mero acaso mas, manteve-a por opção. Achou, bem depois de terminada a formação que era uma área de constante estudo e isso, deixa-o em puro êxtase. Saber que nunca sabe nada e que para saber alguma coisa terá sempre de ler e ler e ler ainda mais é uma tarefa tão sublime como se todos os dias fossem dias mesmo novos. Sem repetição. Sem inércia. Sem enfado.

Durante anos foi feliz na sua profissão que, diga-se desempenhava com a mesma felicidade e frescura como se de um garoto se tratasse ao ver, pela primeira vez ,o mar. As situações mais inusitadas acabavam por fazer com esboça-se um sorriso a cada passo dado com um seu utente. É que sabem não era no fundo, um passo do utente, era um passo do utente com Romeu e isso, dava-lhe a sensação de dever cumprido todos mas mesmo todos os dias.

Romeu portanto, já foi bom, em alguma coisa. Já foi uma pessoa. Uma pessoa que acreditava num futuro melhor. Um futuro bom.

Agora essa tarefa de acreditar torna-se, a cada dia, um esforço mais brutal e complicado e inglório e enfadonho e triste e infeliz e cansativo e... e... e...

domingo, setembro 19, 2010

deus...


O Romeu, quando era novo era um pequeno deísta...

Mais velho, começou a achar que a Julieta era o seu deus...

Nenhum destes pensamentos se revelou como certo.

O Romeu sente-se sempre como um garoto a olhar um majestoso pedestal: qualidades majestosas, possibilidades infinitas...

O universo está, naqueles braços que segura ternamente durante a noite, no olhar carinhoso com que olha a pessoa amada...

Rilke, afirmou um dia, numa das suas cartas, que a única forma de se manter um casamento seria sempre pelo movimento de separação-reconciliação.

Romeu adora ler Rilke e acha-o um verdadeiro escritor... Não concorda, porém, com esta afirmação do seu escriba tão admirado.

O Romeu só quer mesmo é não se separar ainda que compreenda que por vezes, nessa ânsia de não-separação acabe por ser mal interpretado e muitas vezes a separação se torne implacavelmente desejada.

Por vezes, Romeu, só desejava não ter constantemente as lágrimas nos olhos.
Não ter de se separar.
Não ter de perder parte de si, todo o outro.
Ver as rugas na cara do outro surgirem.
Adivinhar-lhe os cabelos brancos...

De poder dizer: estivemos uma vida inteira juntos e teremos outra para ficar perto um do outro.

sábado, setembro 18, 2010

A tarefa...


Depois de muito ponderar, Romeu chegou à conclusão que é tarefa mais difícil aprender a deixar de amar alguém do que aprender a amá-lo...

Não chega contudo, à conclusão de como é que tão facilmente deixam de o amar.

Deixa-o mais perplexo ainda o facto de o tempo para si ser sempre uma medida mais alargada do que para os outros.

O Romeu está mesmo "a leste do paraíso" e isto literalmente. Mais parece que os outros na sua velocidade estonteante para "passar para outra", para esquecerem, para culparem sem serem culpados... esqueceram que também amaram, ou pelo menos assim o disseram.

O interessante notar é que estas pessoas são de facto felizes: o Carnaval veneziano nesses "países" existe e é uma constante. Regem-se pela máxima: não me dá prazer, então não quero. E pensava o Romeu que era um arlequim...

No fundo o Romeu não passa de um palhaço rico... e claro, como o próprio palhaço rico do circo: gozado, pelos palhaços pobres que com ele se cruzam.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Actividade


Estava um dia belo: uma atmosfera quente e húmida... o tal quente angolano -ou seria o Ete indien de Dassin? A verdade é que Romeu nunca o tinha presenciado, um ou o outro, mas depois de tantas vezes o escutar nas palavras de Julieta, já o tinha "apreendido" na sua memoria com tal pormenor que julgava poder senti-lo.

Nesse dia, nesse fim de tarde tirava fotos ao acaso, do acaso... de rostos marcados, de um tronco de árvore com uma particularidade, de uma pedra com contornos incomuns, de uma cidade que fervilhava vida... A vida tem sido gentil para Romeu nestes dias: deixa-o em paz, com paz.

Sente falta de Julieta durante o dia:
- Como estás?
- O que tens feito?
Sinto saudades do teu cheiro...
- Por aqui está a mesma loucura...
- Quero chegar a casa, aos teus braços...
- O cão? Os gatos?

Pela noite fora:
- Conta lá...
- Tens de ter paciência.
- O jantar gostas?
- E amanhã o que há para fazer?
- E queres boleia?
- E então o sentiste?
- Vem para a cama, deixa o computador.

Abraça-a antes de sentir o corpo desmaiar, murmura-lhe ao ouvido as últimas palavras do dia: beijo-te. muito. muito. mesmo.
Abraçou-se, como se se reconforta-se ao relembrar aquelas palavras, a quentura daquele corpo, o cheiro... claro.

A ideia voltou a percorrer-lhe o coração uma e outra vez. Distraiu-se com algo, não sabe o que foi.

Um seu amigo acabou de combinar com ele um café. Queria falar de amor, da sua namorada, do filho que estava para nascer, da sua ida para o estrangeiro... A paz iria ser quebrada... uma hora ou duas... depois estaria como queria: só com os seus segredos, pensamentos, livros, musica e com o seu sentimentalismo tolo!

Estava tão, tão cansado...

Depois de muito o ouvir acerca de considerações desnecessárias acerca do amor, Romeu resolveu terminar a conversa dizendo apenas:

A felicidade não é algo para ser almejado. É um derivado da actividade que se almeja.

E nessa noite não dormiu um único segundo...

quinta-feira, setembro 16, 2010

Dicotomia



O Romeu tem longo histórico, comprovado, analisado e público de diversas idiossincrassias.

Durante anos a fio nem ele soube que padecia de tal problema.

Os médicos fizeram-lhe um sem numero de exames.
Os psicólogos acharam por bem que realiza-se diversos testes, até projectivos.

Os sociólogos debatiam a possibilidade de algum problema cultural.

Os arqueólogos pensaram num povo que tivesse na sua história, estória semelhante.

Os politólogos achavam que era uma facção anárquica desconhecida.

Os advogados aventaram a hipótese de ser crime.

Os matemáticos inventaram formulas e equações para chegarem a algum tipo de conclusão.

Os físicos perderam-se na química.

Os linguistas estudaram e procuraram nas línguas mortas textos alusivos.

Os filósofos arregalavam os olhos com a possibilidade iminente e ilimitada de discussão acerca do assunto.

Fizeram-se tratados, monografias, estudos, textos, peças televisivas e até teatro...

Enfim, toda uma multidão académica e não académica debruçou-se sobre Romeu tentando compreende-lo.

O seu temperamento peculiar que a nenhum outro homem se assemelhava.

A sua fisionomia estranhamente grega e que nada tinha a ver com o Homem de Vitruvio de Da Vinci, a realidade de todos os outros homens.

O seu pensamento lógico.

A sua hipersensibilidade.

As mulheres que por ele passavam e, ao invés de o estranharem rejubilavam em sua presença.

Tudo isto era uma incógnita, não se sabia como, nem porquê, nem onde...

Romeu era uma incógnita física-psicólogica. Um mistério filosófico. Um problema... matemático sem resolução à vista... o primeiro... o único.


Afinal, era verdade -pensou Romeu- também ele surpreendido: Sou mesmo do OUTRO mundo!

segunda-feira, setembro 13, 2010

Se fosse...


Toda acção da nossa vida tem apenas 2 intenções:
- Para nos fazer felizes...
- Ou infelizes.

Assim sendo, as acções de Romeu têm como principio torná-lo feliz...
Como fim, têm sido umas acções, especialmente infelizes.

Se o Romeu, sabe disso acerca de si... o outro saberá o mesmo acerca dele?