segunda-feira, agosto 30, 2010

Férias


O Romeu esteve de férias...
Esse tempo foi sagrado.
O Romeu já foi muito feliz em certas férias mas, nos últimos anos as férias têm surgido mais como a "maldição da múmia" do que como a descoberta do túmulo de Tutankamon...

Aliás, o Romeu receava, e com razão, que mais uma vez estas férias fossem amaldiçoadas por um qualquer acontecimento que o ultrapassa-se... Assim, foi: primeiro a Julieta abandona o Romeu à sua sorte e depois, o Romeu, tem a morte do seu familiar mais querido...

Em desespero de causa o Romeu, decidiu, mesmo assim, ir de férias, obrigou-se e, garanto-vos, a tarefa não foi fácil...
Pela primeira vez na sua vida, foi sozinho e sentiu-se só...
Porém, a inicial angustia deu lugar a uma estranha forma de paz mal chegou ao seu destino...

É verdade que nos primeiros dois dias alguns amigos ainda o lembravam das dores: uns porque repetiam incessantemente as palavras de Julieta, outros porque lamentavam a sua perda familiar...

O Romeu, conseguiu, estranhamente, até para ele, abstrair-se da primeira situação pensando que não se deveria preocupar muito com o que os outros diziam ou pensavam...

Já não queria saber das mentiras contadas...
Não se interessava pelas manipulações de bastidores...

No fim de contas ele sabia que sempre haveria duas versões para uma mesma história e que se um dos lados já havia contado a sua, uma repetição de um "filme" apenas com outros factos, não deixava de ser uma repetição...

O Romeu já tinha "visto filmes" destes a mais. Aliás, mais do que aqueles que teria gostado ver...
Achou portanto, aquela parafernália circense desnecessária, sobretudo se, esse partilhar de intimidade fosse feito com "semi-desconhecidos"...

Ainda que sem expressar isso ao próximo sempre que com ele falavam por forma a não ser desagradável, teve pena da "fraqueza" de Julieta mas, não deixou de sentir uma certa complacência e compreensão na situação, pois se Julieta contou era porque precisava de o fazer. Se permitiu que "entrassem" na sua intimidade seria, porque não se incomodava com isso.

Não julguem por isso, que Romeu não se sentiu e ressentiu. Como gente que é, teve sentimentos contraditorios mas, pensou: as coisas só podem tomar conta de nós se deixarmos que elas entrem...

Muito francamente, o Romeu, já tem "acumulados seis anos nas suas costas" de sentimentos negativos, de falsas promessas, da tal falsidade humana e, crê, hoje, sinceramente, que tal também se deve a si: porque, a dada altura, mesmo que inconscientemente, deixou que os sentimentos negativos (e as pessoas) entrassem e, muitas vezes tomassem conta dele... Eu já vos disse que o Romeu é humano???? Pois... foi isso.

A única vantagem de Romeu é que tem tantas falhas que acaba por ter uma capacidade acrescida para compreender a dos outros... por isso, raramente guarda ressentimentos, poucas vezes é rancoroso e, à excepção de uma ou outra vez em que perdeu, literalmente, "a cabeça" é que foi vingativo.

No fim dos seus dias, o Romeu acha sempre que o que fazemos de mal, reverte -mais cedo ou mais tarde- para nós, portanto, o melhor é não sermos nem termos muitas acções negativas e/ou das quais nos venhamos a arrepender...

Quanto à segunda situação, o Romeu pensou de novo: em breve encontrarei, noutra dimensão existencial o meu avô. O seu caminho, agora, começou de outra maneira... portanto, é só uma questão de darmos tempo ao tempo...

Assim, estas férias forma um misto de paz e turbulência, felicidade e alguma tristeza latente... Mas e a vida não é sempre assim?

terça-feira, agosto 24, 2010

Acontece.


Por vezes o Romeu anda confuso, a constância da insatisfação do seu espírito inquisidor assim o leva à procura desenfreada dos livros, das musicas, da arte... é neles que se reencontra, é neles que se pacifica e, também é nestes objectos, aparentemente, sem importância que sossega a alma.

Certo dia, lendo Confúcio debruçou-se sobre um parágrafo: "O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a tempestade, ele caminha sobre as ondas e desafia o vento."

Releu aquela frase diversas vezes, não pode deixar de pensar: "Talvez esteja na hora de navegar ondas e aproveitar o vento ao invés, de estar em constante luta." O Romeu nunca foi de desistir mas, perguntou-se: "Para quê lutar por algo que mais ninguém quer e só tu é que vês?"

Nesse dia, não leu mais.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Assim é a morte...


O Romeu perdeu ontem a pessoa que mais amava da sua família... Este amor não tinha a ver com sangue, ou parentesco, com idade ou afinidadades mais banais.

O Romeu e o seu avô eram almas gémeas.

O seu amor não foi crescendo, quando Romeu nasceu, ele já lá estava à sua espera. E Romeu precisou apenas de o ver uma vez para o reconhecer...

Se Romeu ama virtuosamente, a ele o deve.
Se Romeu tem bons princípios, foi ele que lhos ensinou.
Se Romeu adora viver, com ele aprendeu.
Se Romeu não é pessoa de ressentimentos e outros sentimentos menos nobres, foi o seu avô que lhe lhos estendeu nas mesmas mãos com que, no dia anterior a falecer, lhe pediu um abraço e um beijo.

Romeu sente-se órfão, do seu "pai", companheiro, amigo... Neste dia, na sua família, uns choram, outros gritam, outros há que falam sozinhos...

Os últimos anos não se têm apresentado fáceis para Romeu mas, este ano tem sido, particularmente doloroso para si.

No meio da dor, só Romeu se encontra no canto, parado, sem verter lágrimas, sem dizer palavra... É que para esta situação o avô de Romeu não o preparou... Romeu sente-se perdido e não sabe o dizer, o que pensar, o que sentir...

Romeu, teve sempre a fantasiosa ideia de que este amor não morreria... Tinha razão... A sua única certeza é de que um dia, em breve, irá encontrar o seu avô...

A vida continua avô mas, para mim agora, é mais a contra-gosto...

quinta-feira, agosto 19, 2010

E assim vai a vida...


O Romeu durante diversas semanas ponderou a hipótese de confrontar, de pedir explicações, de exigir justificações... não por ser quezilento mas, apenas para poder compreender: porquê...

Ponderou a maturidade das suas questões...
Pensou nas diversas hipóteses de resposta do outro lado...
Considerou a probabilidade de sinceridade...
Avaliou os prós e os contras de tal confronto...
Meditou na importância de saber o porquê de alguém o expor daquela maneira...
Reflectiu nas consequências que as perguntas poderiam criar...

Afinal, a resolução do caso foi muito mais simples: nada como realmente, falar de banalidades e darmos a outra face... A seu tempo, ou não, o outro aperceber-se-à dos erros.

terça-feira, agosto 17, 2010

Já foi assim...


É sempre com redobrado prazer que o Romeu fala com os seus amigos. Por isso, foi com prazer que hoje falou com uma amiga que ajudou faz muito tempo... Esta amiga passou por maus momentos, e o Romeu, juntamente com o seu fiel companheiro Mercutio, estiveram ao seu lado no apoio incondicional... Depois ficaram muito tempo sem se falar... Graças à teimosia de Romeu, que sempre foi enviando "cartas" e missivas a amiga está de volta...

O Romeu é assim, quando gosta não desiste e quando desiste não gosta muito de si... A conversa de ontem deixou-o francamente feliz, por si mas, acima de tudo por saber que a sua amiga estava bem. Disse ela depois do banal fiz isto e aquilo:

"São só dores e isto não vai para melhor!"

"Então o que se passa?"

"É a P.D.I..."

"Deixa lá, eu com esta idade e já tenho reumático!"

"Sempre foste precoce!"

"Sim? Em quê? Parece-me que só nas coisas más!"

"Nã. Em tantas coisas boas... No saber o que querias... e o que não querias... Sempre me lembro da tua inteligência humorística mas, também lembro do teu rir a bom rir, sempre perspicaz na tua opinião e nas tuas ideias, amigo, presente... É essa a ideia que tenho de ti. É assim, que me lembro de ti. Gosto deste Romeu!"

"Hum... também gosto, mas já não existe."

"Existe pois, está apenas momentâneamente arrumado... mas virá, és isto, por isso o que foste até agora é que não eras tu... está na altura de esquecer quem não gosta de ti e de voltares a ser quem eras. É doloroso, pois é, mas como dizias tantas vezes: tudo passa, tudo acaba, tudo se transforma... Romeu, essa dor, esse Romeu fajuto, também há-de acabar!"

"És uma boa amiga... pelo menos sabes animar-me!"

"E isso, para uma amiga já não é mau pois não? Há tanta gente que só fica feliz quando estamos na mó de baixo!"

"Verdade!"

"Ah lembrei-me de outra coisa..."

"O quê?"

"Tu sempre foste amigo nas boas ocasiões mas excelente, nas más... porque sempre me querias ver bem! E aquilo que fazias de palhaçadas para me veres bem..."

"Sabes, é que uma pessoa de bem com a vida, chateia muito menos do que uma de mal com o mundo!"
"Vês?! Já me fizeste rir... e hoje tou cá com umas dores!!!!"

"Querida, tu e eu, tu e eu!"

segunda-feira, agosto 16, 2010

E depois?


O Romeu tem vasta família... como é conhecido a família não se dá com outras famílias rivais e, por vezes até dentro da própria família há rivalidades...

Há porém, um núcleo de pessoas, restricto, em quem o Romeu confia implicitamente... Um deles é o seu primito Michelangelo. Pequeno mas esperto como um alho.

Certo dia, vendo um mar despontar nos olhos de Romeu perguntou:
- Então Romeu, descascaste uma cebola?

Ao que Romeu respondeu com um nó na garganta:
- Sim.

Não convencido com a resposta o petiz replicou:
- Não. Diz lá de verdade.

Romeu olhou-o com o reconhecido carinho e disse-lhe:
- Estou triste!
- Porquê?
- Porque do outro lado de um outro mundo, acabou o amor.
- E depois quando o amor acaba o que vem depois?
- A raiva.
- E depois?
- A dor.
- E depois?
- A saudade.
- E depois?
- A tristeza.
- E depois?
- O que tiver de vir depois.

Aos 2.800

Aos 2.800 metros de passeio, Romeu parou.
Olhou, desceu as escadas, voltou a olhar. Julgou que estaria no sítio errado. Subiu de novo e afinal verificou que não, o local era o correcto.

O coração que o mar tinha esculpido desaparecera como se também a natureza, adivinha-se o fim de tal escultura.

Romeu quedou-se ali durante algum tempo... como o seu órgão de fogo, também ali as coisas se verificavam: o seu coração já tinha estado meio, e já tinha estado repleto, agora, como a escultura encontra-se partido, vazio, sem mar, nem sol, nem nada...
A praia permitiu que ali ficassem a descansar memorias... que ele gostava de voltar a viver mas que sabe que não voltam...

E assim foi, durante muito tempo...